O ANO NOVO

O fim das ilusões é um assassínio
que a gente estende às criaturas cuja cegueira
aplaude o discurso raso e contraditório.
Quis o destino que, no primeiro dia do ano,
às horas sucessivas à ressaca etílica
de uma noite comemorativa,
fossem empossados os novos geriatras do poder.

Cada qual com seu discurso purpurínico.
Cada qual com sua boca torta
e mãos grossas da exploração alheia.
Velhos engomados, defensores da família,
com suas ninfetas que foram jantadas
na mesma definição da família anterior.

O novo ano não me deixa alternativa.
Me traz um presidente no qual não votei.
Um presidente que não será meu,
não simplesmente porque fui derrotado,
mas que foi ascendido pelo que num país há de pior.

Queria desejar um Feliz Ano Novo
a meus amigos e inimigos.
Mas tudo o que consigo é declarar
um Bom Fim de Ano.
Apenas um bom fim de ano.
O que vem já é manjado!

E o discurso pronunciado da posse
é manifestamente contraditório:
promete combater a discriminação
e se coloca frontalmente contra a Ideologia de Gênero,
ainda que, para tanto, seja uma invenção de causa.
Promete crescimento através da restrição de direitos
dos que verdadeiramente trabalham.

Eu não desejo um Feliz Ano Novo.
Nada de novo há nele!
A não ser a resistência
e talvez uma vontade
de fazer a razão triunfar
sobre o poder e a farsa.

Resistamos.
Troquemos o propalado orgulho pelo engulho.
E saibamos o valor das ideias
que iluminam os caminhos em tempos sombrios.
Eu não serei o nove deste ano!

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